Projeto “Retratos Contados” junta avós e netos – entrevista a Nelson Mateus

Numa sociedade envelhecida como a nossa, os mais velhos têm muito para partilhar. É deste ponto de partida que surge o projeto “Retratos Contados”.

Estivemos à conversa com Nelson Mateus, co-autor do livro “Diário de uma avó e de um neto confinados em casa”, responsável pelas iniciativas “Retratos Contados” e ainda comissário da Exposição de Alice Vieira e de Ruy de Carvalho.

Como surgiu a ideia do projeto “Retratos Contados”?

A ideia surgiu pela necessidade de criar uma “Biblioteca de avós e netos”, onde as gerações atuais possam recordar e conhecer melhor as gerações anteriores.

Qual é a principal mensagem por trás do projeto?

Pretende ser um projeto inovador e diferenciador que valoriza as ligações intergeracionais entre avós e netos, onde, de forma positiva, se abordem temas relacionados com a importância dos velhos na sociedade e se fale do paradoxo que é a velhice. Ninguém quer ser velho mas todos queremos chegar a velhos.

“Ninguém quer ser velho mas todos queremos chegar a velhos.”

As novas gerações valorizam os avós? Ou já se começa a notar algum distanciamento?

Somos o resultado da soma daquilo que os nossos antepassados construíram. O que fazemos hoje irá contribuir para as próximas gerações. O que fazemos nos “Retratos Contados” é partilhar as histórias de Portugal, através dos avós e netos. Juntem-se a nós nessa “missão”. Juntos somos mais fortes na valorização dos mais velhos.

Se há uns anos atrás era comum os avós não trabalharem e passarem muito tempo com os netos, hoje esse paradigma mudou um pouco. Acredita que existe agora uma menor disponibilidade por parte dos avós?

Os avós são mais disponíveis, mais pacientes do que quando foram pais. Muitos avós já não querem ser “avós a dias”. São avós que gostam de estar com os netos, mas para terem tempo de qualidade com eles e não para estarem a tomar conta dos mais novos. São duas gerações com várias décadas de distância, mas que têm muito para aprender uma com a outra.

Que atividades são dinamizadas no âmbito do projeto “Retratos Contados”?

No site www.retratoscontados.pt  já estão publicados mais do que uma centena de testemunhos de avós e netos. Uns em forma de entrevista, outos escritos pelos próprios.

Em 2019 realizei, no Estoril, o 1º evento “Encontro Avós e netos” que, devido à Pandemia não se repetiu, mas que gostaríamos imenso de voltar a realizar. Durante o 2º confinamento, com a escritora Alice Vieira (que me trata por neto), escrevemos o “Diário de uma avó e de um neto confinados em casa” que tem sido um sucesso.

Há muitos retratos já contados pelo projeto…

Como já são mais do que uma centena de “protagonistas” o melhor é espreitarem o site Retratos Contados e Redes Socias! Mas posso acrescentar que são protagonistas com muito para partilhar e com quem todos nós aprendemos. Testemunhos que nunca são sensacionalistas, mas que pretendem ser sempre sensacionais.

Ruy de Carvalho, por exemplo, celebra no início do próximo ano 95 anos de vida e 80 de carreira. É o ator português mais velho no ativo. O homem que tenho o privilégio de chamar avô. Tinha que ter uma exposição que fosse uma linha do tempo de uma vida dedicada à arte e à família.

Está também a decorrer uma exposição com a Alice Vieira…

Alice Vieira celebra 60 anos de jornalista e 40 de escritora. É transversal a diversas gerações. A Exposição conta um pouco do muito que é a sua vida e obra.

E há ainda espaço para outras atividades?

Sim. Para além das Exposições, organizo tertúlias com os homenageados, onde abordamos temas como: Envelhecimento ativo, luta contra o abandono e solidão dos mais velhos, a importância da ligação entre avós e netos… Tertúlias cheia de optimismo. Com interesse para a Cultura, Turismo e Ação Social.

Gostaria de levar estas iniciativas a todos os Municípios de Portugal. Quando digo todos estão incluídos os Municípios das ilhas da Madeira e Açores. E, um dia, também gostaria de levar estas iniciativas às comunidades portuguesas residentes no estrangeiro.

Paralelamente ao projeto “Retratos Contados”, escreveu com Alice Vieira o livro “Diário de uma avó e de um neto confinados”. De onde nasceu a ideia deste livro?

Em janeiro de 2021 vemo-nos novamente confinados. Para passar o tempo decidimos começar a mandar emails (como se fossem cartas) um ao outro. Essa cartas foram todas publicadas no site e facebook “Retratos Contados” no Facebook “Alice Vieira Escritora”. Desde o início que começaram a fazer imenso sucesso.  Inúmeras partilhas, muitos comentários, e até sugestões sobre vários temas para abordarmos.

Qual considera ser o público-alvo do livro? Por que não é exatamente um livro dentro do género a que Alice Vieira nos habituou…

É um livro para ser lido por toda a família. Que leva os leitores numa viagem às memórias de Portugal.

Como foi escrever um livro em co-autoria com Alice Vieira? Sentiu o peso da responsabilidade de escrever com uma das escritoras mais conceituadas do nosso País?

Não podia ter corrido melhor. Não senti “penso da responsabilidade nenhum”, primeiro porque na realidade era precisamente como estivesse a escrever para a minha avó, por outro lado estava longe de imaginar o sucesso que o “Diário” iria ter. Em www.retratoscontados.pt já estão publicados mais de que uma centena de testemunhos de avós e netos. Temos estado construir uma Biblioteca de avós e netos. Através deste tema contamos uma parte da história de Portugal. Percebemos as mudanças da sociedade através das diferentes gerações.

A Alice Vieira faz parte desses testemunhos. Foi amor à primeira conversa. Onde a Alice, uma avó disruptiva, fora dos padrões convencionais, partilhou a ligação que teve com os avós e que hoje tem com os 4 netos de sangue. A nossa amizade foi ficando cada vez mais sólida. Até que a Alice, devido ao meu trabalho, começou a tratar-me por neto e eu a tratá-la por avó (embora ela rapidamente retifique que não tem idade para ser minha avó

Como tem sido a aceitação por parte do público?

A 1ª edição foi publicada em Setembro, na Feira do Livro. E sucesso foi imediato. As pessoas que nos seguem nas redes socias estavam ávidas de ter o livro com a compilação das crónicas. Embora muitos tenham seguido o “Diário” através do site, e redes socias, grande parte das pessoas prefere ter o livro. Até porque nem todos lidam da mesma forma com as tecnologias.   A 2ª edição também tem voado dos pontos de venda, tanto que diariamente recebemos mensagens de pessoas a reclamarem que não encontram o livro nos pontos de venda. Como tal, estamos em contagem decrescente para a 3ª edição do livro.

Projetos para o futuro?

A segunda temporada do “Diário da avó e do neto” já está concluída. Tem inicio em abril 2021 e termina no final do ano. Vai no seguimento da 1ª temporada. Só que desta vez já desconfiados.

Temas não nos faltam. Falta-nos sim tempo para fazer tudo o que desejamos.

Com o livro estou a realizar tertúlias em Universidades Seniores, Teatros, visitas a Juntas de Freguesia, para levarmos avós e netos, através do nosso livro, a uma viagem às memórias de Portugal.

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