Entrevista com Carina Novo promotora do projeto “Histórias de Ler e Contar”

Carina Novo é autora de dois livros infantis: “A Menina que Tinha Medo de Cães” e “Contos de Bem-Querer”. Fomos conhecer a autora e contadora de estórias que nos falou sobre os seus projetos e desafios.

Como surgiu o gosto pela escrita e leitura de livros infantis?
A escrita sempre fez parte da minha vida. De pequena habituei-me a ter os meus diários, a escrever os meus poemas, os meus desabafos, funcionava quase como uma terapia. Num tempo em que ainda não existiam
computadores, o meu pai comprou uma máquina de escrever elétrica. A partir desse dia, o processo de escrita foi muito mais intenso e interessante. Para além de escrever, sempre gostei muito de ler. Os livros têm este poder incrível de nos fazerem «desligar» da realidade, de nos fazerem viajar mesmo sem sair do lugar. Ainda me lembro de esperar ansiosamente pela vinda daquela viatura que era a biblioteca itinerante, aquele pedaço enorme de magia que nos fazia sonhar.
Em casa dos meus pais sempre houve muitos livros, de muitas temáticas. O meu pai incentivava imenso o nosso gosto pela leitura. Ainda hoje guardo delicadamente a versão francesa do livro «Alice no País das Maravilhas» que ele me trouxe numa viagem que fez a Paris.
Durante o confinamento, altura em que fui obrigada a parar, dei por mim a ter mais tempo para ler e escrever. Não tardei a ser rodeada de pensamentos acerca da possibilidade de fazer algo com isso. Foi assim que nasceu o projeto «Carina Novo – Histórias de ler e contar».

“A Menina que Tinha Medo de Cães” conta-nos uma estória um pouco diferente. De onde surgiu a inspiração para escrever este livro? É baseado numa estória verdadeira?
Em pequena a minha filha Margarida tinha um medo terrível de cães. Foi muito complicado ajudá-la a lidar e a gerir essa emoção. Ao longo das aventuras e desventuras que fomos vivendo, fui percebendo que havia outras crianças (e até alguns adultos) que também partilhavam esse receio. Foi através dessas experiências e acontecimentos que nasceu a ideia de escrever o meu primeiro livro infantil, que também retrata algumas das situações que vivemos com ela. Na altura desafiei a ilustradora, Dina Sachse, a criar uma ilustração que também fosse inspirada na minha filha. O resultado não podia ter sido melhor.

Como tem sido a reação a esta obra?
A receção ao livro tem sido fantástica e as crianças adoram ouvir esta história.

“Contos de Bem-Querer” é o seu segundo livro. O que podemos esperar deste conjunto de estórias?
Este livro tem um conceito bastante diferente do primeiro, uma vez que ele reúne uma panóplia de histórias que fui escrevendo ao longo dos últimos tempos, poemas, uma peça de teatro, etc. No fundo é uma obra através da qual consegui recuperar as memórias da minha infância, as aventuras que vivi quando era pequena, as personagens que faziam parte do meu imaginário, as conversas que fui ouvindo por aqui e por ali, as brincadeiras e os diálogos que ouvi as crianças partilhar, os reparos que fazem acerca do mundo e dos outros.

Além da escrita de livros infantis, dedica-se também a contar estórias. Como é essa experiência?
À semelhança da escrita e da leitura, este sempre foi um mundo que me encantou, pela possibilidade de fazermos sonhar, de fazer encantar, de criarmos momentos mágicos e únicos, momentos de partilha, de afeto, de proximidade, de fazermos juntos viagens maravilhosas pelo mundo encantado das histórias. Por isso sabia que escrever não era suficiente. Tinha de dar outra vida às minhas histórias, outras roupagens, tinha de as partilhar com os outros. Adoro dividir as palavras, as personagens, os mundos que existem nos meus livros… para que mais pessoas possam viver dentro dessas histórias, emocionar-se com elas, inspirar-se e sonhar, nem que seja por breves momentos.

Que tipo de livros e estórias prefere contar?
Nas minhas sessões gosto de contar não só as histórias que fazem parte dos meus livros, mas também as outras histórias que vou escrevendo frequentemente. Adoro trabalhar e preparar essas narrativas e depois
testemunhar ao vivo e a cores as reações dos mais pequenos e familiares, envolvê-los na magia da história, embalá-los nas aventuras e fazê-los sonhar com as ousadias das personagens. Gosto de construir narrativas que saiam fora da caixa, com ou sem mensagens, mas que todas elas façam sorrir quem as ouve, que as faça esquecer a rotina dos dias e que sintam que os livros e as histórias que moram neles, podem ser uma excelente companhia.

Qual o seu livro infantil preferido?
O meu livro infantil preferido é a «Alice no País das Maravilhas», de tal maneira que já tenho várias edições da obra. E este é o meu livro preferido por muitas e muitas razões.

Porquê?
Desde logo, porque Lewis Carroll foi ousado, criativo e inovador ao escrever uma obra fascinante que rompeu com os modelos existentes na época, altura em que as histórias para crianças eram escritas essencialmente para passar uma mensagem, uma moral. Qual é o escritor que não adoraria escrever uma obra que, passados tantos anos, continua a ser um ícone cultural e literário? Depois porque me identifico imenso com a Alice, a protagonista da história, uma menina destemida, curiosa e que tem dificuldade em gerir as injustiças. Mas também porque é uma história cheia de personagens inusitadas, aventuras descabidas, momentos hilariantes, todo um enredo que nos prende do início ao fim, e é precisamente no seu carácter absurdo e irrisório que mora a singularidade da obra.
Esta é uma história que consegue alcançar vários objetivos, uma vez que pode ser lida pela perspetiva da criança, em que a obra diverte, estimula a sua imaginação, mas também pela perspetiva do adulto que, para além de a ver da perspetiva da criança, ainda lhe acrescenta as mensagens subliminares que a
obra possui.

É voluntária na associação Nuvem Vitória. Como é contar estórias para crianças hospitalizadas?
Foi uma amiga que me falou deste projeto de voluntariado na altura que se formou o núcleo no Porto. Nunca mais me esqueci das suas palavras quando me disse «este projeto é a tua cara». Confesso que só percebi essa afirmação quando já estava dentro das paredes do hospital. Algo em mim despertou (ainda mais) para a importância do ato de contar histórias. Foi aí que percebi, ao ver a cara das crianças e dos familiares, que as histórias, para além de nos fazerem viajar por outros mundos, de nos fazerem rir e sonhar, têm ainda um
enorme poder terapêutico, não só para quem ouve, mas também para quem conta. Na verdade, naqueles minutos em que estamos a contar a história, em que folheamos as páginas, esquecemo-nos de tudo aquilo que nos rodeia e viajamos todos juntos através das aventuras que vivem nos livros. São momentos realmente mágicos, indescritíveis, de partilha e afeto, de uma força inabalável, em que recebemos muito mais do que aquilo que damos.

Atualmente está a frequentar a pós-graduação “A Arte de Contar Estórias”. O que espera poder aprender?
Albert Einstein dizia que “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Não podia estar mais de acordo. Tenho uma sede tremenda de conhecimento, por isso faço com frequência muitas formações nesta área, mas também leio muitos livros acerca desta temática. E isso prende-se com a minha necessidade de trazer mais conhecimentos e valências para o meu projeto, ampliar quer a minha visão quer os conceitos que detenho, trocar experiências e aprendizagens. Para mim esta postura é fundamental em qualquer área profissional. Não se consegue inovar ou implementar melhorias se não existir esta procura constante. Frequentar esta pós-graduação vai ao encontro desse meu objetivo e a experiência não poderia estar a ser mais enriquecedora e interessante, não só pelos conhecimentos e partilhas já adquiridos, mas também pela qualidade dos docentes e pelos colegas incríveis que encontrei!

Dedica-se a tempo inteiro à escrita e leitura de livros infantis? 
O projeto «Carina Novo – Histórias de ler e contar» é recente, motivo pelo qual ainda não é possível dedicar-me exclusivamente a ele, apesar de ocupar uma boa parte do meu tempo livre. Existe todo um trabalho de bastidor que tem de ser feito para alimentar o meu projeto e fazer com que cresça. Escrevo com frequência para não perder o ritmo e para ter sempre repertório diferente para as minhas sessões, leio imenso e depois ainda há a tarefa constante de gestão das minhas redes sociais e do site, as respostas aos emails, entre outras.

Em que tipo de eventos conta estórias?
A magia de contar histórias, tento levá-la a qualquer lado…a uma escola, a uma creche, a um jardim de infância, a uma biblioteca, a uma praça, a mundos pequenos, pequeninos, grandes e grandalhões…desde que sejam mundos incríveis e que me queiram ouvir. Por isso mesmo, nestas minhas viagens mágicas, já passei por bibliotecas, centros culturais, escolas, creches, aldeias Natal, festivais literários, eventos municipais e particulares, entre muitas outras aventuras.

Como se incentiva o gosto pela leitura, numa era onde tudo começa a ser digital, onde as crianças passam horas a ver vídeos e televisão?
Infelizmente lê-se muito pouco em Portugal. A justificação usada com frequência acerca do custo dos livros, já nem sequer serve de argumento. Atualmente não faltam soluções para ler quase sem custos ou até sem custos nenhuns. Desde logo acho que o exemplo tem de vir e ser trabalhado no contexto familiar. Este é talvez o mais importante ponto de partida para adquirir hábitos de leitura. Desde a infância que os pais são modelos a seguir. Numa casa onde não se lê, onde não existe o estímulo à leitura, dificilmente as crianças e jovens o farão. Como tal, reforço a importância deste trabalho partir de casa: deve haver livros em casa, os pais devem ler livros aos seus filhos, devem frequentar livrarias e bibliotecas (onde é possível o empréstimo
domiciliário), ir a eventos literários, a sessões de contos, entre muitos outros. Temos ainda de relembrar a repercussão que as obras de estudo obrigatório podem ter nestes resultados. Num estudo realizado em 2022 pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ficamos a saber que 43% dos jovens dos 15 aos 24 anos são os que menos prazer encontram na leitura, exatamente aqueles que mais leem no contexto escolar, por causa dos estudos ou da realização de trabalhos escolares. Não deixam de ser intrigantes estes
resultados. Na verdade, fico admirada quando vejo a minha filha de 16 anos, estudar as mesmas obras que eu estudei há 35 anos. Julgo que um dos passos a tomar, terá de passar necessariamente pela inserção de obras literárias mais atuais e estimulantes, com as quais os jovens se possam identificar mais facilmente. Depois podemos ainda aliar as novas tecnologias à leitura. Uma vez que crianças e jovens fazem parte de uma geração em que tudo (ou quase tudo) está disponibilizado na internet, porque não fazer uso das tecnologias e tentar um modelo de leitura um pouco menos convencional? Existem imensas aplicações onde é possível aceder a livros em formato digital. Já que esta geração passa grande parte do tempo nos seus dispositivos
móveis, será muito mais provável que se interessem por um livro que esteja disponível neste formato. Temos de tirar partido disso.

Já tem projetos literários para 2023?
Julgo que este será um ano muito importante e decisivo para o meu projeto. Para além de já ter agendadas várias sessões de contos pelo Norte do país e convites para participar em alguns eventos literários, também já estou a cozinhar o meu próximo livro. Terá como pano de fundo um tema bastante atual e pertinente e desta vez será lançado com uma outra editora. Mas para já vou continuar a dar o devido protagonismo aos meus dois primeiros livros infantis. Sem dúvida que neste momento o meu maior foco é dar a conhecer o meu projeto «Carina Novo – Histórias de ler e contar» e que consiga ser reconhecida neste meio, como escritora e contadora de histórias. Sei que este pode ser um projeto recente, mas ele carrega a mesma dose de amor,
empenho e afeto e é assim que pretendo que olhem para mim e identifiquem o meu trabalho. A seu tempo revelarei mais pormenores acerca dos novos desafios que me esperam…

Como é que alguém pode entrar em contato para marcar uma sessão de leitura?
Quem me quiser contactar para agendar uma sessão de leitura comigo, pode fazê-lo de diversas maneiras. Para tal basta acederem às redes sociais do meu projeto: Facebook: Carina Novo – Histórias de ler e contar Instagram: historias_de_ler_e_contar ou então através do telemóvel: 919 102 200 ou endereço de email: carinacostanovo@gmail.com.

Sobre a autora
Carina Novo nasceu em 1975, na lindíssima cidade de Paris. Aos dois anos voltou com os seus pais para a sua terra, em Viana do Castelo e por lá ficou até aos dezoito anos. Nessa altura foi estudar para o Porto onde acabou por ficar. Mentora do projeto, “Carina Novo – Histórias de ler e contar”, através do qual se tornou escritora de livros infantis e contadora de histórias, sabe que as aventuras que vivem dentro dos livros merecem ser partilhadas, porque nessa partilha há uma viagem mágica e única que se faz. Ouvir histórias é mergulhar num tempo que se quer tão maravilhoso quanto único e divertido, porque elas trazem momentos repletos de afeto, emoções, encantamento e aprendizagens.
As histórias brindam-nos com a possibilidade que cada um a viva de forma distinta, que lhe possa dar um novo sentido, um colorido diferente, que a leve na sua memória, mesmo quando as janelas se fecham e a noite cai.
Nas suas viagens leva-nos pelos seus livros “A menina que tinha medo de cães” e “Contos de Bem-querer”, lançados em 2022 pela editora Trinta-por-uma-linha.

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