Entrevista a Margarida Fonseca Santos

“Nunca deixem de contar histórias!“

O Monstrinho Camõestrinho esteve à conversa com Margarida Fonseca Santos, uma escritora com mais de cem livros publicados e uma referência no panorama da escrita para crianças e da escrita criativa, ou melhor, Desafios de Escrita, em Portugal.

Como começou o gosto pela escrita?

Acho que o segredo foi ter sido sempre uma leitora compulsiva, e isso veio de ter andado num colégio inglês até aos seis anos, onde havia sempre quem contasse histórias todos os dias. Quando passei para a escola portuguesa, não havia biblioteca, nem na escola, nem na sala de aula, e isso levou-me a procurar todos os livros que pudesse ler. Quando os meus filhos nasceram, comecei a contar-lhes histórias e, a certa altura, a inventá-las, e foi assim que começou a aventura da escrita, tanto para crianças como para adultos.

Dos livros que escreveu, qual é o seu preferido? Se é que é possível escolher algum… 

Vou mudando de preferidos ao longo dos anos. Para crianças, talvez o que mais me sensibilize agora seja este «Rua do Silêncio». Mas há mais: «O aprendiz de guerreiro», «Reconstruir os dias» e «De nome, Esperança».

Escreve também obras na área da Escrita Criativa. De onde surgiu esta paixão? 

Sempre tive a certeza que iria ensinar, porque se está sempre a estudar, a aprender, a inventar formas diferentes de ensinar as coisas. E foi o que me aconteceu, primeiro na Formação Musical, no Ensino Artístico, e depois na escrita. Prefiro chamar ao que faço Desafios de Escrita, já que a Escrita Criativa está agora muito conotada com receitas para fazer escritores. O meu objetivo é outro (e é o que fazemos no Projeto Re-Word-It): transformar a escrita de todos um prazer, algo entusiasmante. Brincar com as palavras, os sentidos, as letras, pois assim também gostaremos mais de ler, são áreas transversais a toda a nossa atividade. O livro mais recente chama-se «Razões para escrever».

Qual a sensação de ver a sua obra traduzida para outras línguas?

Não tive muitas. Coisas muito pontuais. Agora, no Re-Word-It, temos materiais em inglês, mas quanto aos livros, talvez a mais importante tenha sido «Uma questão de azul-escuro», adaptado para Português do Brasil, e um romance de adultos, «De zero a dez».

Neste momento tão diferente das nossas vidas, que livros aconselha os mais novos a ler? E para os pais e educadores tem alguma sugestão?

Tenho uma sugestão muito clara e, ao mesmo tempo, muito aberta: deem o máximo de livros diferentes a ler e a ouvir, nunca deixem de contar histórias (seja em que idade for), aceitem as escolhas das leituras e interessem-se por essas escolhas. E não tentem tirar lições de moral das histórias, isso cada um fará no seu inconsciente e, muitas vezes, muito depois de ter lido ou ouvido a história. Não são para ser explicadas, são para ser sentidas.

Ainda hoje continua a dinamizar sessões em escolas? Como é lidar com estas novas gerações?

Continuo a fazer sessões como autora e na área dos Desafios de Escrita, mas sempre em linha – por razões de saúde, mesmo sem pandemia. Não sinto dificuldade, na verdade, gosto muito de ouvir, responder a perguntas, desafiá-los para jogos de escrita, gosto de descobrir o mundo assim, com os jovens, as crianças, e também com os adultos.

Como se desenvolve o gosto pela leitura numa criança na era digital onde tudo tem de ser imediato?

Bom, temos de apostar no que não é imediato – nas histórias contadas com calma, na partilha de leituras. E deixar a casa armadilhada com livros abertos, ler excertos de que gostámos, para que ler e partilhar livros faça parte do quotidiano.

Acredita que o livro em papel tem os dias contados?

Não, de todo. E, pelas mesmas razões de saúde, custa-me muito segurar nos livros e leio imenso num leitor digital. São suportes diferentes com objetivos iguais. O livro em papel tem a vantagem de transformar a leitura em algo muito íntimo, em que facilmente se volta atrás e se saltam páginas. Vão sempre coexistir.

Pequena biografia da autora

Foi professora de Pedagogia e Formação Musical em várias escolas, nomeadamente na Escola Superior de Música de Lisboa. Estudou Escrita Criativa, Escrita para Teatro, Guionismo e Curta-Metragem. Tem mais de 100 livros publicados, sendo a maioria na área infantojuvenil, grande parte incluídos no Plano Nacional de Leitura. Publicou três livros de canções para os mais novos. Dinamiza oficinas de escrita para professores, alunos e adultos. Alguns dos seus romances são: De Nome, Esperança (2011) e De Zero a Dez (2014). Publicou, em 2015, o livro AltaMente – treino mental e uso pedagógico da metáfora. 

A coleção «A Escolha é Minha» (da 20|20) é uma coleção para adolescentes sobre o dia-a-dia: podemos não controlar o que nos acontece na vida, mas podemos sempre decidir como vamos reagir a partir daí. 

Criou as Histórias em 77 palavras, recomendado pelo Plano Nacional de Leitura 2027, integrado agora no Projeto Re-Word-It – Brincar a Sério com as Palavras, onde se trabalha a escrita, a leitura, a atenção e a metacognição. 

Em fevereiro de 2019 publica Razões para Escrever, sobre a escrita quotidiana, e em 2020, com Isabel Peixeiro e Rosário P. Ribeiro, os dois livros Razões para Ler, para utilização do conto e da metáfora em sala de aula.

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