Entrevista a Luísa Ducla Soares

“A descoberta da leitura é uma conquista”

Quer miúdos, quer graúdos, provavelmente, já leram algum livro da escritora Luísa Ducla Soares. O monstrinho leitor foi conhecer esta escritora que tem 50 anos de carreira e mais de 180 livros publicados.

Como começou o gosto pela escrita?

Tudo começou com o gosto pela leitura, que sempre me acompanhou. Por volta dos 10-11 anos, resolvi exprimir-me, comunicar através da escrita.  Iniciei-me na poesia, em versitos de pé quebrado. Mostrei-os à minha professora de Português, que os publicou no jornal da escola. Isso deu-me ânimo para continuar e inclinar-me para ser escritora. Ao longo de toda a adolescência e juventude fui enchendo cadernos e mais cadernos com os textos que ia inventando. Ao entrar para a Faculdade de Letras de Lisboa passei a colaborar em diversas revistas, mas só me abalancei a publicar um livro (de poesia, para adultos) depois de estar licenciada.

 Completei no ano passado 50 anos de vida literária. A Biblioteca Nacional apresentou então uma exposição sobre a minha vida e a minha obra, justamente no início da pandemia e, em seguida, fechou as portas. Todas as outras comemorações ficaram naturalmente adiadas ou transformaram-se em comunicações digitais.

Ainda hoje continua a dinamizar sessões em escolas… Como é lidar com estas novas gerações?

As novas gerações estão muito mais à vontade com um escritor que vá à escola e são muito mais dinâmicas e colaborantes. Quando comecei a ir a estabelecimentos de ensino, chegavam a querer tocar-me porque pensavam que os escritores eram pessoas mortas…  Hoje adoram fazer entrevistas, preparam até dramatizações, leituras de poemas, fazem imensos desenhos ilustrativos do que leram.  Tanto podem tratar-me por doutora como por tu mas as crianças são muito mais expansivas e próximas!

Claro que há, muito raramente, casos problemáticos, alunos contestatários que gostam de se evidenciar. Já me perguntaram que drogas é que eu tomava para escrever, já me perguntaram como perdi a virgindade, já me perguntaram como iria reagir quando fosse atacada por um gang de jovens africanos à saída da escola. Mas respondi-lhes com humor e daí por diante as sessões até foram interessantes.

Passando muito tempo nas escolas, ganhando confiança das professoras, damo-nos bem conta de muitos problemas e mesmo dramas que envolvem certos jovens, vítimas de negligência, de preconceitos, de abusos sexuais, de fome de comida e de afetos.

Como se desenvolve o gosto pela leitura numa criança na era digital onde tudo tem de ser imediato?

No início do primeiro ciclo, a descoberta da leitura é uma conquista e, nessa idade, as crianças não estão ainda viciadas pelo mundo digital. Acho até que nunca se leu tanto no primeiro ciclo como agora. 

À medida que crescem, a situação altera-se. A partir do 6º ano a comunicação empobrece com o recurso constante ao telemóvel. A urgência impõe-se, não se coadunando com a leitura. Deixam de ter interesse pela descoberta das palavras que se degradam, que passam a abreviaturas funcionais que não lhes interessa fruir.

Claro que há técnicas que certos professores e bibliotecários vão desenvolvendo para captarem o seu interesse. Tenho participado em vários clubes de leitura, de declamação, que põem a ler em voz alta não só os mais novos como os familiares e convidam também autores.

Acredita que o livro em papel tem os dias contados?

Não julgo que tenha os dias contados pois é muito mais agradável ler em papel do que num écran. Todos sentimos alguma falta de coisas palpáveis neste mundo onde tudo é passageiro, efémero.  Mas acho que é evidente que, em muitas circunstâncias, vai ser largamente ultrapassado pela consulta ao computador.  

Quem é que não trocou as enciclopédias pela Wikipédia? Quem não usa os dicionários digitais? Quem não consulta dessa forma notícias, receitas de cozinha, textos científicos (que já não são impressos), até certos textos literários?

Mas um livro lê-se de forma diferente, amadurecida, conduz à reflexão, cria um elo de intimidade com o leitor.

Ao todo, quantos livros publicou? A lista é muito extensa. São tantos temas, tantos títulos, tanta variedade…

Publiquei 181 livros. Uns em verso, outros em prosa, para idades muito diversas. Fiz recolhas de literatura tradicional, escrevinhei contos, diários, novelas, biografias, letras para canções, peças para teatro, livros de divulgação para além dos de teor didático que me encomendaram.

 Dos livros que escreveu qual é o seu preferido?

Não tenho um livro preferido. Em cada um exprimi uma parte de mim, dos meus sonhos.  Hoje acho que os livros, de certo modo, são como filhos dos escritores. Sabemos bem ver as suas qualidades e defeitos, mas algo de intrínseco nos liga a todos.

Para este período de quarentena, que livros aconselha os mais novos a ler? E para os pais e educadores?

Todas as pessoas são diferentes, independentemente de idade, sexo ou meio social. Nas escolas, professores e alunos estão sempre a perguntar-me que livros indico. Mas um livro interessante para uma pessoa com determinado perfil pode, definitivamente, criar na que está ao lado uma animosidade duradoura contra a leitura. 

O que se passa em geral também se passa no período de quarentena.

Claro que seria proveitoso se os pais em quarentena lessem algo com cabeça, tronco e membros sobre psicologia e educação infantil ou juvenil. Mas, francamente, acho que, se têm trabalho à distância, se são obrigados a ficar confinados com os filhos em casa, ganhariam bastante em aproveitar o tempo para os conhecerem melhor, para conversar. Então, vão descobrir tantas coisas que nenhum livro ensina!

Eu, por acaso, tenho estado a ler uma obra bem recente sobre a necessidade de dar independência às crianças, de as voltar a largar na rua com os amigos para brincarem mas cheguei à conclusão de que alguns dos seus conceitos essenciais são de todo inaplicáveis na sociedade urbana atual.

Tem tido um papel muito ativo socialmente. Integrou o Gabinete do Ministro da Educação no pós-25 de abril, fundou o Instituto de Apoio à Criança, orientou uma bibliografia de literatura para crianças, escreveu guiões televisivos, realizou todos os sites de Internet da Presidência da República para crianças e jovens no mandato do Presidente Jorge Sampaio.… Na sua opinião, o papel do escritor tem de ser interventivo? Não basta ficar por palavras bonitas?

O papel do escritor depende da sua personalidade. Há livros maravilhosos, como os de Proust, que giram apenas em torno da intimidade do autor. A beleza puramente estética pode justificar uma obra de arte. 

Em contrapartida, há autores que detestam torres de marfim, que lutam por ideais ou, pelo menos, sonham com eles, e exprimem essa postura no que fazem e escrevem.  A mim, pessoalmente, interessa-me a sociedade que me rodeia, acho que quem está neste mundo deve procurar intervir para alterar qualquer coisa para melhor. Há que trabalhar para os outros, pelos outros. Eu sou apenas uma pequena formiga num vasto universo mas cada formiga pode carregar o seu grãozinho de trigo para o celeiro comum…

Com uma vida tão ativa, consegue ter tempo para si?

O tempo que gasto “ para os outros “ é também meu. Sou viciada no trabalho, sinto-me mal sem uma ocupação que me exceda.  Gosto das coisas que faço : de apoiar a família, de ler, de escrever, de contactar com as escolas, de responder aos mil e um e-mails que os miúdos , os professores, certos músicos ( que querem musicar os meus poemas ) me enviam. É para mim uma obrigação que faço com gosto dedicar-me ao Instituto de Apoio à Criança. Antes do 25 de Abril fui presa por posições antifascistas mas na prisão aprendi lições de vida que nunca esquecerei. Trabalhei no Ministério da Educação mas interessava-me tanto a educação ! Estive 30 anos na Biblioteca Nacional mas não posso viver sem livros !

Se  me perguntar se tenho tempo para ir ao cabeleireiro, à manicura,  se tenho tempo para ir  escolher toiletes, digo-lhe que não. Se me perguntar se tenho tempo para descansar em férias, digo lhe que não.  Mas detesto fazer isso ! 

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