Entrevista à autora Isabel Ricardo

Isabel Ricardo é uma conhecida autora portuguesa que conta com mais de 30 livros publicados em Portugal e alguns no estrangeiro. Falámos com a escritora que nos lembrou a sua infância, como surgiu a paixão pelos livros e sobre como as ideias para novos títulos lhe surgem nos momentos mais inesperados.

Aos 11 anos escreve o primeiro livro de aventuras. Como surgiu o gosto pela escrita?
Penso que já nasceu comigo, pois aos 3 anos já inventava histórias, criando personagens, diálogos e enredos, mesmo sem ainda saber ler e escrever.
Aprender a escrever revelou-se uma alegria constante. Foi uma libertação poder escrever tudo o que me vinha à cabeça. Daí a escrever o primeiro livro foi um pulinho. Já escrevia pequenas histórias quando andava na escola primária e, claro, “abusava” quando tínhamos de fazer composições. A professora demorava mais tempo a ler as minhas composições do que a ler as das outras alunas todas juntas. Enquanto ela me deixasse, eu escrevia…
Aos nove anos inscrevi-me na Biblioteca Gulbenkian da Nazaré e comecei a trazer livros às escondidas dos meus pais, que me proibiam a mim e à minha irmã de ler livros que não fossem os escolares. Achavam que era perda de tempo. Por isso tínhamos de o fazer à socapa. Li imenso, até várias vezes o mesmo livro. Depois já não havia livros que me satisfizessem. Desejava ler outros livros que não existiam, por isso decidi escrevê-los eu.
Nas férias de Verão, aos 11 anos, escrevi o primeiro livro de aventuras e constatei que era aquilo mesmo que queria fazer para o resto da minha vida; escrever livros e encantar, apaixonar e entusiasmar as pessoas com eles, tal como eu me entusiasmava. A partir dos 13 desatei a “bombardear” as editoras com os meus livros. Não me ligaram nenhuma, não só pela minha idade, mas também pelo desconhecimento do nome, mas isso nunca me fez desistir. Continuei sempre a batalhar pela concretização do meu sonho e esperei 16 anos para que a minha primeira obra fosse publicada, aos 29: “A Floresta Encantada”, que recebeu um prémio de cultura devido à sua mensagem ecológica.

Tem uma obra bastante diversificada. Prefere escrever para crianças ou para adultos?
Não tenho preferência. Gosto de escrever para todas as idades e não encontro qualquer dificuldade nisso. O processo de escrita é diferente, no sentido em que nos temos de adaptar à linguagem da faixa etária para que vamos escrever e termos a sensibilidade de lhes despertar o interesse e o prazer da leitura. Os livros infanto-juvenis originam um contacto mais próximo com os leitores, devido às muitas sessões de incentivo à leitura que realizo em escolas e bibliotecas. Recebo o retorno imediato, o entusiasmo, o carinho, a curiosidade, a simpatia e isso é maravilhoso. Muitas escolas trabalham os meus livros e depois também sou convidada a estar com os alunos e é sempre uma imensa alegria para eles e para mim também. Acho que me divirto tanto como eles. Em relação aos livros para adultos, a vantagem é divertir-me a escrevê-los durante muito mais tempo, porque exigem uma maior elaboração, o que lhe dá uma dimensão que poderá atingir mais de 500 páginas.
Sinto imensa satisfação em acompanhar os leitores desde crianças até à idade adulta, mantendo sempre uma relação próxima de amizade com eles.

A escrita é algo que corre nas veias da sua família, pois tem um filho que também já publicou alguns livros. Incentivou o seu filho a seguir os seus passos, ou foi uma descoberta que fez sozinho?
Nunca incentivei o meu filho a seguir os meus passos. Sempre lhe demonstrei que ficaria feliz com qualquer profissão que ele escolhesse e apoiá-lo-ia sempre. Desde pequenino que gostava muito de escrever e, quando eu estava à máquina de escrever, ou ao computador, tinha uma mesinha ao meu lado e ele desenhava e escrevia, ficando muito feliz com isso. Aos 11 anos escreveu uma história tão gira que a enviei para uma revista e foi publicada. A sua surpresa e alegria foram indescritíveis. Achei engraçado ele ter a mesma tendência que eu e tirar prazer da escrita. Aos 16 anos publicou um livro de literatura fantástica e aos 18 seguiu-se o segundo. Fiquei orgulhosa, claro. A minha filha também gosta de escrever contos, mas directamente em inglês. Tal como o irmão, também se sentia toda contente por ter uma mesinha ao lado da minha secretária. A única influência que poderão ter tido da minha parte foi só essa, verem-me sempre a escrever. Aliás, eles cresceram rodeados de livros.

As ideias costumam surgir-me em catadupas, bombardeando-me a mente sem avisar

Como arranja inspiração para tantas obras?
É uma pergunta difícil de responder, apontar uma das principais fontes de inspiração, porque tenho uma imaginação fértil e desenfreada e ela pode surgir das mais diversas formas, nunca é igual. Tanto pode surgir inesperadamente ao apreciar uma paisagem deslumbrante – o mar da Nazaré e o seu promontório é uma das que me inspiram sempre -, em castelos fico completamente elétrica e vêm-me imediatamente muitas ideias à cabeça. Também pode acontecer com uma frase, um sonho, ou simplesmente uma ideia que se vai formando na minha mente… A música também me inspira. Por exemplo, a inspiração para a coleção “Guerreiros da Luz” aconteceu numa viagem de expresso de Lisboa para a Nazaré, quando estava a ouvir na rádio uma canção dos Eurythmics: “I Save The World Today”. Durante toda a viagem vim a escrever em tudo o que podia (tenho sempre papel e esferográfica comigo) e tive até de recorrer ao livro de cheques e estraguei 20, que era os que tinha…
As ideias costumam surgir-me em catadupas, bombardeando-me a mente sem avisar e não é estranho para mim estar a pensar em várias histórias ao mesmo tempo, histórias completamente diferentes. Desde o enredo do 15º volume da coleção d’ “Os Aventureiros”, como o 3º volume da trilogia “Porto do Graal”, o enredo de dois romances históricos que tenho na cabeça no momento, histórias infantis, para a pequenada. Enfim! A minha cabeça está sempre a pensar em novas histórias. Não consegue parar.

De entre tudo o que escreveu, tem algum livro favorito?
Não tenho livro preferido. Todos me dão prazer e alegria. O que me dá mais entusiasmo é o que estiver a escrever no momento, pois vivo tudo aquilo e sinto-me muito empolgada. Depois de estarem publicados, gosto de todos da mesma maneira. É como se fossem meus filhotes. Talvez o que me tenha divertido mais tenha sido o romance histórico “O Último Conjurado”, pois foi o que demorei mais tempo a escrever.
Eu adoro o que faço. Coloco muito de mim em todas as personagens, até nos “bandidos”. Divirto-me a valer com elas e tento criá-las o mais realistas possível, para que os leitores sintam que são quase reais e que os conhecem, e é o que normalmente me costumam comunicar. Já criei centenas de personagens e lembro-me de qualquer uma. Cada livro é único, diferente, independente. Por vezes parecem ganhar vida própria e enveredar por caminhos que inicialmente não previ. Mas o resultado final é sempre gratificante, porque, para mim, escrever é um prazer!

Os seus livros “O Dragão Trapalhão” e o “Fantasma das Cuecas Rotas” trazem-nos histórias divertidas. Acredita que o humor é uma das maneiras mais fáceis de conquistar um pequeno leitor?
O humor é muito importante na nossa vida e, de facto, é uma das formas para conquistar rapidamente os mais pequenos. Eles gostam de nomes engraçados, até estranhos, e que as personagens façam coisas malucas que lhes arranquem umas boas gargalhadas. O sentido de humor é uma das características que me define e que aponto como estruturante dos meus livros. Esse, aliado ao mistério, aventura e suspense, são os principais ingredientes que gosto de polvilhar ao longo dos enredos, seja para crianças ou para adultos.
O meu objetivo principal é cativar os mais novos para a leitura e proporcionar divertimento e emoção. Também tenho sempre a preocupação que o livro tenha uma componente pedagógica, transmitindo-lhes valores importantes e a aquisição de variados conhecimentos. Nos livros que referiu, o primeiro aborda o tema da adoção e a descoberta de que todos somos importantes. No segundo, é abordado o tema do direito à diferença (somos todos diferentes, mas todos iguais). No meu mais recente, “As Trapalhadas de Quintch-Pintch”, a mensagem é a da cooperação e entreajuda (todos precisamos uns dos outros). Em “A Morceguita Destrambelhada” é o valor da amizade, a de “O Coelhinho Avarento” é a generosidade e a solidariedade. O tema de “A Floresta Encantada” é o da ecologia, e não enumero muitos outros. Gosto igualmente de lhes estimular a imaginação e incentivá-los a amar a nossa Língua e a nossa História, como acontece com as várias coleções infanto-juvenis que já referi.

Já referiu que acha importante o contacto com os leitores. Costuma ir a escolas e bibliotecas promover os seus livros?
Eu adoro os meus leitores e para mim é essencial o contacto com eles. Aliás, tenho uma ligação muito especial com todos. Consideram-me um dos seus amigos e eu também. Correspondemo-nos através de e-mails, SMS, telefone… Gosto muito deles. São todos espetaculares e muito queridos.
Já visitei centenas de escolas, dinamizei centenas de sessões e conheci milhares de crianças e jovens e devido a essas sessões tenho um contacto muito próximo com esses leitores. Da parte deles recebo sempre a melhor resposta possível; muita alegria e emoção, afecto e admiração. Aprecio imenso esses momentos. É extremamente recompensador estar com eles, porque a relação de proximidade é muito grande. Costumo dizer que devo ter os melhores leitores do mundo.
É muito gratificante saber que sou muito querida dos leitores e continuo sempre a fazer novos, que me recomendam a outros. Ter concretizado aquele sonho de infância que era escrever como profissão. Muitos professores recomendam os meus livros aos alunos. Todos estes aspectos me fazem sentir realizada.

Uma curiosidade, continua a escrever os livros à mão? Ou já se rendeu ao digital?
Antigamente, escrevia sempre à mão, mas acabei por desistir porque, quando a inspiração me assaltava, escrevia tão depressa, para poder acompanhar as ideias que surgiam, que quando voltava a ler, não sabia o que lá estava escrito… Não podia deixar que decorresse mais de dois dias para passar a limpo o que tinha escrito. Aliás, o livro “Sofia Gama e a Profecia do Templário” (1º volume da pentalogia Guerreiros da Luz), agora em nova reedição, foi muito especial e diferente de todos os outros. Foi escrito durante a noite, às escuras. Em média, acordava umas dez vezes, escrevia, voltava a adormecer, acordava e assim por diante até me levantar no dia seguinte. É claro que durante o dia andava completamente ensonada, como é de calcular… Esse livro foi responsável por me proporcionar experiências inesquecíveis.
Atualmente, ainda tiro apontamentos à mão, mas de manhã vou diretamente para o computador e é lá que escrevo, e para isso preciso de tranquilidade. Escrevo durante algumas horas, às vezes mais de doze, todos os dias da semana, exceto aqueles em que visito escolas e bibliotecas.

O livro é uma ferramenta essencial na formação e educação da criança

Numa altura onde o digital assume um papel preponderante, como se motiva a leitura nos mais pequenos?
É muito importante o primeiro livro que a criança lê porque, se não estiver interessante e atrativo, a criança pode criar aversão aos livros. Os pais devem escolher bem esse livro. Deve ser divertido, emocionante, cativante e transmitir algo importante, pois o livro é uma ferramenta essencial na formação e educação da criança, pois pode transmitir-lhe bons valores e ajudá-las a distinguir o bem e o mal.
As educadoras fazem um excelente trabalho desde muito cedo com as crianças, lendo-lhes histórias, dinamizando-as, despertando-lhes o interesse em as ler. Os professores também realizam um trabalho muito louvável no mesmo sentido. Em casa, esse trabalho também deve ser feito, pois é lá que deve ser o início de tudo. É muito importante que os pais consigam tirar uns minutos do seu atarefado dia para lerem aos filhos, pelo menos, ao deitar, sempre um bocadinho. Isso é meio caminho andado para as crianças crescerem com os livros, gostarem deles e tornarem-se bons alunos. Não é à toa que os melhores alunos são excelentes leitores.
O amor pelos livros pode ser contagiante, sobretudo quando causa grande entusiasmo, ao ponto de ser transmitido de pessoa para pessoa, de boca em boca… É importante que se tenha a noção que o livro vai interessar aos leitores, pois é para eles que escrevemos.
Para mim os livros sempre foram mágicos e tento sempre proporcionar essa sensação maravilhosa aos leitores, a alegria, a descoberta, as viagens… Por isso é uma alegria imensa encontrar os meus livros nas livrarias e bibliotecas e saber que tenho uma legião de leitores que esgotam edições.

Sobre a autora
Isabel Ricardo escreveu o primeiro livro aos 11 anos e possui já uma vasta obra, publicada
não só em Portugal, mas também no estrangeiro.
Em 1993 é publicado o seu primeiro livro: A Floresta Encantada, com o apoio do Instituto da
Juventude, obtendo um prémio de Cultura.
É autora da série de grande sucesso “Os Aventureiros”, cujo primeiro volume já vai na décima
primeira edição e atualmente com 14 volumes, da pentalogia “Guerreiros da Luz”, constituída
pelos livros: “Sofia Gama e a Profecia do Templário”, “Lucas Cabral e o Segredo da Amazónia”,
“Fernão Dias e o Mistério das Pedras Negras”, “Os Guerreiros da Luz e o Portal Sagrado” e “Os
Guerreiros da Luz e a Batalha Final”, atualmente esgotada. Escreveu também a trilogia “Porto do Graal”, ainda não terminada, formada por “Em Busca do Mapa Perdido” e “O Tesouro Esquecido”.
O grande êxito entre a pequenada, “O Fantasma das Cuecas Rotas”, é da sua autoria, tal como “Um
Sonho Muito Interessante”, “A Floresta Encantada”, “As Travessuras do Vitinho”, “Quando Eu Fui
Pardal”, “O Coelhinho Avarento”, “As Aventuras do Xico-Larico”, “A Morceguita Destrambelhada”, “O
Dragão Trapalhão” e “As Trapalhadas de Quintch-Pintch”.
A sua obra é caracterizada pela escrita muito visual, assim como a capacidade em criar enredos
empolgantes, repletos de mistério e suspense. A proximidade que mantém com os leitores resulta numa cumplicidade que os leva a dedicarem-lhe uma amizade especial e um enorme entusiasmo pelos seus livros.

Desenvolve uma intensa atividade em escolas e bibliotecas de todo o país, promovendo acções
de incentivo à leitura entre crianças e jovens.
Os seus livros infanto-juvenis são recomendados por vários Professores de Português e de
História.
Seis dos seus livros, em inglês (“The Adventurers and the Treasure Cave”, “The Quest for the Lost
Map”, “Sofia Gama and the Templar’s Prophecy”, “The Last Conspirator”, “The Adventurers and the
Underground River” e “The Forgotten Treasure”) contaram com o apoio à tradução da DGLAB –
Direcção Geral dos Livros, dos Arquivos e das Bibliotecas, e do CAMÕES – Instituto da
Cooperação e da Língua, no âmbito do LATE – Linha de Apoio à Tradução e Edição 2020, 2021 e
2022, distinguidos já com alguns prémios nos EUA.
Paralelamente, também escreve para os adultos, sendo uma das suas grandes paixões os
romances históricos, com várias edições que revelam o seu sucesso editorial. É autora de “O
Último Conjurado”, (Revolução de 1640), com três edições, “A Revolução da Mulher das Pevides”,
(Primeira Invasão Francesa), duas edições, “O Segredo de Ana” (segunda metade do século XIX),
“A Demanda do Mestre” (Crise de 1383-85) e “Nuno Álvares Pereira” (histórico juvenil), além do livro
de mistério: “Crime e Sedução”.
Este ano comemora 30 anos de vida literária, assinalada precisamente com a “A Floresta Encantada”, agora reeditado pela Editora Minotauro e lançado no Dia Mundial do Ambiente, no passado dia 5 de Junho, e brevemente publicado também em inglês pela editora norte-americana Underline Publishing.
Reside na Nazaré e em Paço de Arcos, onde se dedica a tempo inteiro à escrita.

Mais histórias
Porto Editora lança obras de Eugénio de Andrade e outros autores intemporais para crianças em idade pré-escolar